Bem-vindos!!!

Sejam bem-vindos a este espaço que eu criei para partilhar um pouco do que que chamo de minhas poesias. Espero que seja um lugar agradável e interessante para todos que o acessam. Boa leitura!

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Esperando um domingo


Queria um domingo para acordar com calma, sem pressa, sem ônibus, sem lágrimas, sem sentidos. Queria um domingo para plantar árvores, regar as plantas, colher os frutos da simplicidade. Queria um domingo para amar devagarzinho, sem hora, sem medo, sem esperar o momento do fim. Queria um domingo para contemplar estrelas, falar baixinho, expor carinhos, descansar. Queria um domingo para matar saudades, salvar borboletas, cantarolar. Queria um domingo para chorar sozinho, sorrir com amigos, sentar à mesa com meus pais, irmãos e amigos. Queria um domingo para olhar o horizonte, ver o sol se por e dormir bem quietinho ao chacolhar das águas do mar e acordar tranquilo, para esperar um novo domingo.

Memória


Guardo com carinho os momentos vividos juntos a ti: o teu olhar alegre a me contemplar, o passeio na praça, o lanche da tarde, o riso solto fora de hora, o motivo da minha poesia, a razão da alegria que ficou tanto tempo marcando passo... Tantos foram os momentos a viajar contigo na cabeça, esperando teu caloroso abraço, o desejo partilhado, a cumplicidade brotando em cada passo, em cada gesto da alegria estampada em nossos dias. Remoendo saudades, sonetos, canções – vem as emoções de um tempo ido. E hoje, o que somos: apenas nós mesmos a dividir um espaço.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

É fácil morrer


É muito fácil morrer, sobretudo quando tudo à sua volta conspira por seu fim. É fácil morrer e este fato transformou a morte em algo tão familiar a ponto de banalizar-se em muitas ocasiões. E a banalização do ato revela-se tão cruel e iníqua a ponto de não poder justificar-se em suas significâncias. Morrem-se em lugares tão impróprios que é preciso perguntar-se: por que? Morre-se na esquina de uma avenida, no trajeto entre a casa e o trabalho, e em muitas outras situações, entre elas: nos momentos de diversão, riso e ódio. Morre-se por bobagens e por vontades. Morre-se porque o outro perdeu o controle de si e antecipou sua morte. Morre-se tão facilmente que tornou-se perigoso – existir. Morre-se todos os dias e sempre porque mata-se todos os dias e sempre. Mata-se também por maldade, por suspeita, por brincadeira, por teste, por dinheiro e, também, por nada. Mata-se porque não compreende-se o valor da vida patrocinada por deuses. Mata-se em qualquer instante e toda a vida está por um triz da morte. A vida e a morte brotando do mesmo solo o tempo todo. Dia desses, enquanto caminhava, foi-me perguntado: “onde houve um homicídio aqui?”. Eu, estarrecido, respondi: “Não sei!”. E não sabia mesmo. A morte passara tão perto e eu, tão absorto na vida, não percebi sua aproximação. O caçador de notícias de morte tinha uma missão a cumprir: divulgar a morte a fim de banalizá-la em suas imperfeições. E eu, tão perto, sentia mais uma vida ir-se e dar lugar a morte anunciada naquele momento. Fora o choque de dois substantivos tão amalgamados a ponto de não saber-se qual era o concreto e o abstrato. Outro dia, eu andava no centro da cidade e encontrei a morte. Fitei-a de perto, assim, em instantes: um gato perdera a vida ali, na esquina, atropelado. Era a vida mais uma vez se dissipando sem anunciar-se, sem ruídos, sem sentido. O gato, assim como o homem assassinado não teria outra vida para usar? Não, decerto. Era a morte nivelando ambos os seres em suas insignificâncias. É muito fácil morrer, pois a vida é frágil e a morte está sempre à espreita, aguardando o momento de desferir o perigoso bote. Morre-se facilmente porque mata-se facilmente. E tudo transforma-se nas mais vis rotinas. Cruel em essência, onde seres tão vivos ceifam a vida de outrem. É a morte banalizando a vida de seu modo mais mesquinho. É fácil morrer porque “viver é muito perigoso”. E eu, desandando-me em saudades, choro pela vida ida de todos os seres que se foram no momento incoerente do ato sedutor e lisonjeador da morte. Assim como a flor despetalada, é a vida que perde-se para a morte: e não há mais volta.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O ônibus

Sempre considerei o transporte coletivo uma comunidade, na qual muitas emoções são expressadas. É nesse tipo de transporte onde vivem-se as situações mais cômicas e dramáticas. Quem dele depende cotidianamente para locomover-se nos centros urbanos, sabe o que quero dizer. O ônibus é uma espécie de parte de nossa casa ou pedaços de várias reunidas num só lugar. É um espaço de trocas culturais intensas (de vários os níveis). No ônibus, já vi serem comemorados vários aniversários; inícios de romances; brigas conjugais; amassos entre pessoas do mesmo sexo e do sexo oposto; já presenciei paqueras entre condutores e passageiros; ouvi, muitas vezes, gritos e choro de criança; cenas de desrespeito com os limites dos outros; encontros calorosos; conheci pessoas interessantes com as quais mantive amizade e compartilhei muitas histórias e estórias. Ônibus (o que eu mais uso) é palco de muitas encenações reais e fictícias; é o local onde os artistas da vida e da fome se faz presente: uns pedem para comer, outros roubam para comer; uns cantam para comer, outros dançam para comer; muitos mentem para fazer sabe lá o quê! Enquanto o ônibus faz seu itinerário por vias retas, tortuosas ou longas, a sinergia da vida vai constituindo-se com muitas intensidades. O transporte coletivo é um locus de trocas de experiências: dores, alegrias, sucessos, fracassos, sonhos, enfim. No ônibus, já busquei olhares e evitei outros, por receio, desejo ou medo. Já estive tão próximo ao corpo do outro; o outro já esteve tão próximo ao meu corpo. Nele, já sorri muitas vezes sem motivo; também já amaldiçoei a existência. No ônibus, aprendi muitas canções novas; já tive ódio de outras. O ônibus já foi objeto do meu refúgio e motivo do meu desespero. Já subi num ônibus por vontade, já desci de muitos após reconhecer o erro. É do ônibus que vejo muitas coisas acontecendo lá fora enquanto faço e refaço meu percurso repetido do meu ir-e-vir diário. É o ônibus propulsor de emoções: cansaços, delírios, repulsa. É, também, onde encontramos os mais diversos cheiros: os básicos, os clássicos, os contemporâneos, os afrodisíacos e, também, os repulsivos (fortes ou mistos). Acima de qualquer coisa coisa, o transporte coletivo é um espaço onde se manifesta a solidariedade: pela grávida, o idoso e o deficiente sem assento onde descansar; pelos pedintes de todos os tipos, lugares e origens – sem falar em suas histórias/estórias e motivos. É o locus da s-o-l-i-d-a-r-i-e-d-a-d-e! Muitos (inclusive eu), já abriu a carteira para atender a um pedido ou realizar uma compra de um artigo que não se tinha necessidade somente para ajudar o outro trabalhador. Mas, para mim, a maior afirmação da ideia do transporte coletivo (ônibus) como uma comunidade e locus da solidariedade foi quando, por azar ou insígnia da nobreza de toda a irmandade, perdi minha carteira num ritual de apertos e balanços. Quem a achou se revelou na personificação de um ser distinto e leal: sem me conhecer, procurou-me no mundo cibernético e terminou encontrando-me para a entrega do tão esperado objeto. Sem dúvida, o transporte coletivo é o lugar onde forças distintas se movem – e onde seres expressam ou escondem sua grandeza.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Reinventando-me

Quando é imperativo o sentimento, decide-se reinventar-se. Hoje sou um artista com minhas várias faces representando nesse palco diário, onde minhas migrações revelam muito de mim. Sou, neste momento, um pierrô desandando em lágrimas por ser incapaz de escolher cores mais alegres. Sou um ator do tempo, cuja imaginação desviou-se pela falta do medo. Sou um artista em meu processo de aprendizagens e apreensões de saberes tão necessários quanto inúteis. Estou lúcido diante do espelho, e minha face mostra uma indiferença tão grande que não me reconheço. Estou lúcido para a vida. Sou um artista que não cansa de fazer poesia, pois nela está a energia que mantém meus passos no caminho. Sou poeta por natureza, artista por profissão, e caminhante da vida. Faço poemas porque sou incapaz de fazer risos. Faço-me artista por não saber ser, entre meus caminhos e gritos, apenas uma pessoa reinventando-se entre necessidades e obrigações sem fim.