É muito fácil morrer,
sobretudo quando tudo à sua volta conspira por seu fim. É fácil
morrer e este fato transformou a morte em algo tão familiar a ponto
de banalizar-se em muitas ocasiões. E a banalização do ato
revela-se tão cruel e iníqua a ponto de não poder justificar-se em
suas significâncias. Morrem-se em lugares tão impróprios que é
preciso perguntar-se: por que? Morre-se na esquina de uma avenida, no
trajeto entre a casa e o trabalho, e em muitas outras situações,
entre elas: nos momentos de diversão, riso e ódio. Morre-se por
bobagens e por vontades. Morre-se porque o outro perdeu o controle de
si e antecipou sua morte. Morre-se tão facilmente que tornou-se
perigoso – existir. Morre-se todos os dias e sempre porque mata-se
todos os dias e sempre. Mata-se também por maldade, por suspeita,
por brincadeira, por teste, por dinheiro e, também, por nada.
Mata-se porque não compreende-se o valor da vida patrocinada por
deuses. Mata-se em qualquer instante e toda a vida está por um triz
da morte. A vida e a morte brotando do mesmo solo o tempo todo. Dia
desses, enquanto caminhava, foi-me perguntado: “onde houve um
homicídio aqui?”. Eu, estarrecido, respondi: “Não sei!”. E
não sabia mesmo. A morte passara tão perto e eu, tão absorto na
vida, não percebi sua aproximação. O caçador de notícias de
morte tinha uma missão a cumprir: divulgar a morte a fim de
banalizá-la em suas imperfeições. E eu, tão perto, sentia mais
uma vida ir-se e dar lugar a morte anunciada naquele momento. Fora o
choque de dois substantivos tão amalgamados a ponto de não saber-se
qual era o concreto e o abstrato. Outro dia, eu andava no centro da
cidade e encontrei a morte. Fitei-a de perto, assim, em instantes: um
gato perdera a vida ali, na esquina, atropelado. Era a vida mais uma
vez se dissipando sem anunciar-se, sem ruídos, sem sentido. O gato,
assim como o homem assassinado não teria outra vida para usar? Não,
decerto. Era a morte nivelando ambos os seres em suas
insignificâncias. É muito fácil morrer, pois a vida é frágil e a
morte está sempre à espreita, aguardando o momento de desferir o
perigoso bote. Morre-se facilmente porque mata-se facilmente. E tudo
transforma-se nas mais vis rotinas. Cruel em essência, onde seres
tão vivos ceifam a vida de outrem. É a morte banalizando a vida de
seu modo mais mesquinho. É fácil morrer porque “viver é muito
perigoso”. E eu, desandando-me em saudades, choro pela vida ida de
todos os seres que se foram no momento incoerente do ato sedutor e
lisonjeador da morte. Assim como a flor despetalada, é a vida que
perde-se para a morte: e não há mais volta.
Bem-vindos!!!
Sejam bem-vindos a este espaço que eu criei para partilhar um pouco do que que chamo de minhas poesias. Espero que seja um lugar agradável e interessante para todos que o acessam. Boa leitura!
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quarta-feira, 26 de setembro de 2012
terça-feira, 25 de setembro de 2012
O ônibus
Sempre considerei o transporte coletivo uma
comunidade, na qual muitas emoções são expressadas. É nesse tipo
de transporte onde vivem-se as situações mais cômicas e
dramáticas. Quem dele depende cotidianamente para locomover-se nos
centros urbanos, sabe o que quero dizer. O ônibus é uma espécie de
parte de nossa casa ou pedaços de várias reunidas num só lugar. É
um espaço de trocas culturais intensas (de vários os níveis). No
ônibus, já vi serem comemorados vários aniversários; inícios de
romances; brigas conjugais; amassos entre pessoas do mesmo sexo e do
sexo oposto; já presenciei paqueras entre condutores e passageiros;
ouvi, muitas vezes, gritos e choro de criança; cenas de desrespeito
com os limites dos outros; encontros calorosos; conheci pessoas
interessantes com as quais mantive amizade e compartilhei muitas
histórias e estórias. Ônibus (o que eu mais uso) é palco de
muitas encenações reais e fictícias; é o local onde os artistas
da vida e da fome se faz presente: uns pedem para comer, outros
roubam para comer; uns cantam para comer, outros dançam para comer;
muitos mentem para fazer sabe lá o quê! Enquanto o ônibus faz seu
itinerário por vias retas, tortuosas ou longas, a sinergia da vida
vai constituindo-se com muitas intensidades. O transporte coletivo é
um locus de trocas de experiências: dores, alegrias, sucessos,
fracassos, sonhos, enfim. No ônibus, já busquei olhares e evitei
outros, por receio, desejo ou medo. Já estive tão próximo ao corpo
do outro; o outro já esteve tão próximo ao meu corpo. Nele, já
sorri muitas vezes sem motivo; também já amaldiçoei a existência.
No ônibus, aprendi muitas canções novas; já tive ódio de outras.
O ônibus já foi objeto do meu refúgio e motivo do meu desespero.
Já subi num ônibus por vontade, já desci de muitos após
reconhecer o erro. É do ônibus que vejo muitas coisas acontecendo
lá fora enquanto faço e refaço meu percurso repetido do meu
ir-e-vir diário. É o ônibus propulsor de emoções: cansaços,
delírios, repulsa. É, também, onde encontramos os mais diversos
cheiros: os básicos, os clássicos, os contemporâneos, os
afrodisíacos e, também, os repulsivos (fortes ou mistos). Acima de
qualquer coisa coisa, o transporte coletivo é um espaço onde se
manifesta a solidariedade: pela grávida, o idoso e o deficiente sem
assento onde descansar; pelos pedintes de todos os tipos, lugares e
origens – sem falar em suas histórias/estórias e motivos. É o
locus da s-o-l-i-d-a-r-i-e-d-a-d-e! Muitos (inclusive eu), já abriu
a carteira para atender a um pedido ou realizar uma compra de um
artigo que não se tinha necessidade somente para ajudar o outro
trabalhador. Mas, para mim, a maior afirmação da ideia do
transporte coletivo (ônibus) como uma comunidade e locus da
solidariedade foi quando, por azar ou insígnia da nobreza de toda a
irmandade, perdi minha carteira num ritual de apertos e balanços.
Quem a achou se revelou na personificação de um ser distinto e
leal: sem me conhecer, procurou-me no mundo cibernético e terminou
encontrando-me para a entrega do tão esperado objeto. Sem dúvida, o
transporte coletivo é o lugar onde forças distintas se movem – e
onde seres expressam ou escondem sua grandeza.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Reinventando-me
Quando é imperativo o sentimento, decide-se
reinventar-se. Hoje sou um artista com minhas várias faces
representando nesse palco diário, onde minhas migrações revelam
muito de mim. Sou, neste momento, um pierrô desandando em lágrimas
por ser incapaz de escolher cores mais alegres. Sou um ator do tempo,
cuja imaginação desviou-se pela falta do medo. Sou um artista em
meu processo de aprendizagens e apreensões de saberes tão
necessários quanto inúteis. Estou lúcido diante do espelho, e
minha face mostra uma indiferença tão grande que não me reconheço.
Estou lúcido para a vida. Sou um artista que não cansa de fazer
poesia, pois nela está a energia que mantém meus passos no caminho.
Sou poeta por natureza, artista por profissão, e caminhante da vida.
Faço poemas porque sou incapaz de fazer risos. Faço-me artista por
não saber ser, entre meus caminhos e gritos, apenas uma pessoa
reinventando-se entre necessidades e obrigações sem fim.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Comum
Os
dias são tão comuns. De manhã cedo, John Lennon abre o portão e
deseja que eu tenha um bom dia. Cabral mostra os mapas dos
descobrimentos, insistindo que eu bata as asas e alce voo para outras
paragens. Pessoa declama um poema na sala enquanto Anita pinta, nas
paredes, as cenas da minha infância e me faz chorar
desesperadamente. Dostoiévski descreve,
perfeitamente, minhas reminiscências, e alaga meu recinto de
nostalgias e saudades. No teto, a paisagem de Dalí me leva às
mesmas contemplações onde realidade e ficção se amálgama em
ideias e pensamentos, confundindo percepções e sentidos. Martins
bombardeia-me com epítetos e melopeias de suas novas construções e
eu, derretendo-me copiosamente, lanço suspiros fatigados de inúmeras
noites sem sono – é o sonho transformando em rochas todas as
minhas aquiescências. É a luminosidade perturbadora do cotidiano
que me mantém estático – tão estático quanto as minhas emoções.
terça-feira, 22 de maio de 2012
A desiludida
De
manhã cedo, parou à porta. Esperava que se abrisse a fim de
realizar a entrega do pacote. Estava ali, quieta e muda sob o frio
congelante e desolador. Esperava, pacientemente, que alguém abrisse,
por dentro ou por fora, a porta que era o seu teste, a sua provação.
Aos poucos desanimava, vez ou outra, sorria – para aliviar a tensão
da espera. O pacote pesava-lhe nas mãos e o tempo passava sem que
qualquer sinal da presença de alguém surgisse. O vento frio batia
em suas faces como bofetadas. E a espera continuava dolorosa. De pé,
segurando o pacote, via o tempo passar indiferente aos seus sentidos
já tão massacrados pelo frio e pela angústia da espera. Ela sempre
achara que as expectativas, seja de quem fosse, deveriam ser
atendidas. Agora, sentia que as suas passavam despercebidas, uma vez
que a porta não se abria. Sentia o cansaço invadir-lhe devagar,
alojando-se nos braços, pernas, cabeça – até tomar-lhe por
completo. Aos poucos ia desiludindo-se de si mesma enquanto dores
seguiam dominando seu corpo. De cabeça erguida, tentava vencer a dor
e aquecer-se com o pacote que, lentamente, ia encostando-se ao seu
corpo e deslizando. Nada acontecia em derredor, exceto o soprar
sempre mais insistente do vento frio. Aos poucos ia pulsando o
coração na tentativa de resistir, mas percebia-se entregando-se,
morrendo, suplicando mentalmente um socorro. Nada acontecia. As
forças fugiam-lhe dos braços, as pernas se cansando – a entrega
completa. Era a morte se anunciando naquela manhã. A espera
terminava ali, com seu rosto frio e macilento colado na porta
fechada. Era a face da desilusão mostrando-se ao dia que terminava
ainda mais frio, com o vento uivando um sonido triste, pela espera
incompleta daquela que morrera ali, assassinada pela desilusão. É.
Um dia haverá apenas o brilho de estrelas novas a iluminar os céus.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Coreografia da segunda-feira
A manhã da segunda-feira começa com o
“trimmmmm” do despertador anunciando que o fim de semana chegou
ao fim e que, agora, é a hora de recomeçar a rotina. Não adianta
jogar o importuno relógio na parede nem se cobrir novamente com os
lençóis. As horas matinais não perdoam. Elas voam mais rápido que
cometas. Entre passos trôpegos, é preciso levantar, separar as
roupas e se jogar no banho para despertar. Vestem-se as roupas,
separa-se a mochila. Acende-se o fogão, prepara-se chá, leite ou
café e bebe-se às pressas. O pão assado come-se andando, para não
perder-se o ônibus. O caminho é longo, o trânsito é ruim, o calor
incomoda. “Vai ser um dia difícil”, pensa-se. Chega-se ao
trabalho, abrem-se as portas, dá-se um “bom dia” sonolento e
senta-se em frente ao computador. Checa-se o e-mail. Toma-se café
quente para despertar-se. Recebem-se as ordens do chefe e iniciam-se
os trabalhos. Ouve-se música, conversa-se com os colegas que se
sentam do outro lado. Ri-se pouco, boceja-se muito. Produz-se menos.
Chega a hora do almoço. Come-se, cochila-se, implora-se que as horas
passem voando, como na noite anterior. O tempo nega-se, demora-se.
Roem-se as unhas, pragueja-se um pouco. A comida pesa no estômago.
Os olhos cerram-se. Dorme-se um pouco. Acorda-se. Trabalha-se
novamente. As horas massacram, estacionam-se, param-se. Espera-se o
final do expediente, mas as horas não passam. Suspira-se. Olha-se a
hora. Falta pouco. Alivia-se. Faz-se a contagem regressiva. Já.
Despede-se. Fecham-se as portas. Parte-se. Espera-se ansiosamente um
novo final de semana, que voa como um cometa ensandecido. Dorme-se. E
tudo se repete ao amanhecer.
sábado, 19 de maio de 2012
Cenário
A cada dia tenho mais certeza de que não sou deste mundo. Na festa,
enquanto todo mundo ria, conversa e ri, eu imagino cenários para as personagens
que surgem em minha mente, no momento em que deitado, observo a alegria dos
outros ao redor de mim. Sempre admirei aqueles que sabem dançar e que, naturalmente,
seguem os compassos sem dificuldades. Eu, não. Minha dança não passa de uma
tentativa de movimento desconcertado. Do sofá, ouço a música que os
festejadores dançam. Uns cumprem a coreografia do “vestidinho preto indefectível”;
outros apenas fazem os passinhos que sabem, sem qualquer pretensão. Eu sou
realmente estranho. Todos bebem vinho, eu tomo suco. Eles dançam, eu deito no
sofá e leio poesia. Os outros falam coisas do cotidiano, de paixões, de
política; eu, quieto e calado, imagino poemas, crônicas, contos, crio cenários
e personagens enquanto a energia do momento vai brotando entre nós. Nesses
momentos, lembro muito da pergunta feita por Clarice de que “gastar a vida é
usá-la ou não usá-la”. Aí, questiono se o fato de eu estar deitado pensando e
lendo poesia quando todos os presentes bebem e dançam, é gastar ou não minha
vida. Estou usando-a ou não? Sinceramente, não sei. Só “sinto que não tenho parte
nisso tudo”, e que geralmente “sou feliz na hora errada”. Será que meu modo
tácito de ser também é felicidade? Eu acho que sim. Sou estranho, diferente
talvez. Mas este fato não me torna superior nem inferior os outros. Sou apenas
aquela criatura que não segue o ritmo, mas que tem um modo peculiar de “gastar
a vida”.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Bon voyage
Uma
pessoa que nasce com essência de pássaro, não se contentará,
jamais, em pisar o chão todos os dias. Um homem-pássaro será
sempre um “voador”, mesmo que seus voos sejam apenas em desejos e
pensamentos. Esta criatura será um eterno Ícaro, querendo “voar,
voar, subir, subir” - um viajante incorrigível. Lembro-me muito de
uma frase encontrada num romance juvenil quando eu era ainda um
menino. E esta frase me acompanha até hoje como filosofia própria.
Ela diz: “Gosto
de sonhar, porque alivia os pés cansados de só andarem na terra!
“.
Essa frase representa bem o que sinto. Sonhar (de qualquer forma) é
um modo de alcançar a libertação. Cada um tem sua maneira de se
compensar, de promover a fuga de seus sertões. Eu tenho o meu. Eu
ensaio uma fuga todos os dias – uma fuga do que está em derredor,
uma fuga de mim mesmo. Mas não consigo sair de mim – nem fujo do
que continua ao meu lado. É um desejo que nunca se realiza – a
fuga não ocorre. Gosto de pensar, e construo o pensamento mais forte
possível, transformo em objetivos e em sonhos. Como pássaro, minhas
fugas se realizam por meio de viagens que formato nas horas vagas.
Sinto imensa atração pelo distante, o quase inalcançável. Viajar
é a forma que encontro para me libertar dos estresses mentais, do
desassossego, das inconstâncias emocionais. É um modo de recobrar
todas as energias que estão no vermelho. As paisagens novas, assim
como comidas, cheiros, caras, são energias vitais. Assim, direciono
meus esforços a essas satisfações. Estou planejando uma fuga para
muito breve. Será uma grande realização – a satisfação de um
desejo, vontade: uma viagem mais longa. Ah, sim, sou pássaro. E
pássaros precisam descansar os pés – voando. Dia desses, pensei
tanto na viagem “dos meus sonhos” que durante toda a noite, vivi,
oniricamente, a experiência. Foi tudo tão real que, seu eu viajasse
agora, eu reconheceria os lugares, viveria os diálogos como se já
tivesse vivido tudo aquilo. Acordei hablando
cosas, piensando, mirando muchas cosas, deseando mi vuelo para
aquella tierra, querendo
que o tempo passe logo. Tenho pressa de viver. Tudo está pronto em
minha mente – e minhas emoções já foram construídas –
esperando o momento da concretização da experiência real. Buen
viaje, chico. Venga temprano. Hasta pronto, hasta luego. Bon
voyage.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Cena urbana
Ontem, durante minha caminhada pelo centro
da cidade, notei uma energia que não é comum nas horas de “rush”.
Apesar de ter sido deflagrada a greve do Metrô, o trânsito fluía e
tudo acontecia sem complicações. Havia tranquilidade e paz na
cidade. Os pontos de ônibus não estavam cheios, não havia barulho
de buzinas e freios, não havia congestionamentos. As pessoas
passavam tranquilas, olhando vitrines, comprando, passeando à toa,
tomando sorvete. Pipoqueiros e carrocinhas de cachorros-quentes
continuavam nos lugares de sempre. As lojas ainda exibiam as ofertas
pós dia das mães e os lançamentos do outono-inverno que estava no
fim. Eu caminhava despretensiosamente, mas alegre pelo dia incomum.
Talvez houvesse um pouco mais de paz em mim e a minha alma respirasse
mais livremente. No entanto, a imagem que mais me cativou foi a de
uma moça sentada num banquinho em plena Conde da Boa Vista, posando
um tanto alegre, um tanto indiferente, para o hippie que fazia
caricaturas em papel branco. Apesar dos pesares, estamos vivendo numa
época de paz. E o acaso continua a nos contemplar com imagens suaves
e cenas leves para que a nossa rotina não destrua completamente o
que ainda há de bom em nós.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Opinião sobre futebol
Num país
de alucinados pelo futebol, é muito difícil ser diferente.
Sobretudo, pela cultura machista que foi instaurada há muito e é
ensinada desde cedo aos pequenos. Não gostar de futebol significa
ausência de virilidade e isso põe a masculinidade de qualquer um em
dúvida, principalmente, numa região como a minha, onde ainda
sobrevive o mito do “cabra-da-peste”. Se ser macho é difícil,
no Nordeste pode ser ainda mais, uma vez que nutrem-se os ideais
provincianos onde macho é macho e fêmea é fêmea – não se
admitem variações. Negar o futebol é excluir-se de um grupo,
grande grupo. É um ato de coragem. Confesso que quando pequeno até
expressei alguma simpatia por tal esporte, afinal, qual criança ou
jovem não deseja ser aceito numa fase tão crucial de descobertas e
identificações? Pois bem, eu jogava futebol com os outros moleques
da minha idade – mas sempre soube que não me dava bem com a coisa.
Mas tudo era diversão e eu me alegrava com aquilo, quando a bola
entrava na trave e a galera gritava “gol”. Quando a gente vai
crescendo, cresce também a maturidade e a gente torna-se capaz de
assumir as preferências, a tolerar manias ou abandonar
comportamentos. Foi o que
aconteceu: o tempo me fez ver que futebol para mim não tem
importância alguma. E se não gostar de futebol for ausência real
de masculinidade, eu não sou homem; meus irmãos, pai, sobrinhos e
cunhados também não. Assumir que não gosta de futebol é um ato de
coragem. Lembro bem que um dia estava voltando para casa de ônibus,
e para minha sorte ou azar, era um coletivo cheio de torcedores que
estavam voltando de um jogo que havia terminado há pouco. No momento
em que entrei, um cara olha para minha roupa e nota as semelhanças
das cores que eu usava com a bandeira do seu time e me pergunta:
“Você torce pelo Sport?”. Eu, corajosamente, respondi que não e
que não gostava de futebol. Naquele momento esperei as vaias e os
comentários que minha resposta pudesse suscitar. Mas, ele apenas
calou – ainda que com ar de reprovação. Não sou contra quem joga
ou quem gosta de futebol. Na verdade, reconheço que praticar
esportes produz bem-estar e ajuda a desenvolver o senso de disputa, a
garra, determinação, e uma série de características boas que
ajudam o esportista a enfrentar a vida. O que recrimino no esporte,
principalmente no futebol, é a ação meliante de indivíduos que é
incentivada pelas torcidas des(organizadas),
propagando imbecilidades e fanatismos que não admitem derrotas – e
que se manifesta em atos de violência e barbárie no asfalto. Aos
poucos, o que há de bom nesse esporte, vai se amalgamando com os
atos da torcida despreparada – transformando valores em medos que
sufocam a sociedade nos dias de jogo. Não tenho vergonha de, como
homem, admitir que não gosto de futebol. Digo mais: cada vez que
noto a barbárie se instalando no estádio ou nas ruas, lanço sempre
mais, meu olhar de indignação e repúdio por tudo isso.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
O poder das palavras
Dizem que
palavra tem poder. Se isso for verdade, então os escritores são
deuses poderosíssimos navegando entre pessoas comuns. Um escritor
para conceber um livro, lança mão de incontáveis palavras
recheadas de significações nem sempre compreensíveis. Seguindo a
linha do poder, cada letra, cada fonema organizado a fim de formar
uma palavra, são pedaços constituídos de força indescritíveis,
até se transformar no poder propriamente dito. Assim, palavras
pequenas teriam um nível de energia e força diferentes daquelas
escritas com maior quantidade de letras, os palavrões literais. Um
escritor, ao construir suas imagens visuais expressas em palavras,
estaria fazendo uso do poder que dispõe em sua imaginação ou da
realidade de onde extrai a força que vaga de uma boca a outra até
se transformar, verdadeiramente, em força. O dicionário, objeto de consulta do escritor seria,
também, todo poderoso, visto que nele encontram-se palavras com
vários sentidos e todas as explicações metalinguísticas. Um
escritor é um deus porque além de sua capacidade de criar vidas ao
seu bel-prazer e estilo, vê palavras em tudo, pois tudo é vida aos
seus olhos, se lhe for conveniente. Se as palavras têm poder, são
os escritores os detentores de toda a cura para os males do mundo.
Como escritor, espero que no momento em que lançar meu escarro ao
chão, todas as liberdades sejam concedidas e toda cura siga para aqueles que dela necessita. Se palavra tem poder, CURA é a palavra
que eu, como o escritor, desejo neste exato momento.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Um pouco de mim
Sempre
soube que não era uma pessoa comum, apesar de ter desejado ser como
as outras – assim capaz de rir de um humor qualquer, me alegrar
facilmente, me sentir satisfeito com alguma realização e acomodado
no conforto simples do meu lar. Não. Nunca fui assim. É claro que
sempre agradeci por tudo que eu recebia como presente ou dádivas.
Mas, jamais o comodismo e a letargia me atacou fortemente. Não. Isso
não é para mim. Sou uma pessoa inquieta em essência. Preciso do
movimento. Da novidade. Preciso estar aqui e ali a fim de manter a
alegria e o bem-estar necessários que produz alegria e felicidade em
mim. Não sou uma pessoa comum porque não gosto do que os outros
gostam – não gosto de futebol, não fumo, não bebo, não uso
drogas, não vou a shows, não ouço qualquer estilo de música.
Gosto dos bregas antigos, do tempo da minha avó e da minha mãe.
Adoro cuscuz, feijoada, lasanha, galinha quisada, manga, graviola, ameixa,
comida mineira, yakissoba, bife de qualquer espécie e sucos. Adoro
os meus amigos. Adoro gente comum, sem frescuras, sem limitações.
Gosto de dormir tarde e conversar com a criatura que estiver perto de
mim. Acho magnífico deitar em camas grandes e lençóis fofos.
Banheiros grandes são, para mim, símbolos de bem-estar. Gosto de reciprocidade. Ainda não
consegui descobrir se sou uma pessoa muito seletiva. As
coisas/pessoas me atraem naturalmente, despretensiosamente. Gosto de
livros, mas não leio qualquer um. Ele tem que me escolher no momento
em que direciono o olhar para a estante. Gosto de coisas que vão
além da superfície. Me sinto alimentado por filosofia e psicologia.
Meu pensamento é mais rápido que o meu desejo e vivo no “Mundo da
Lua”, fazendo diariamente viagens mil à “Maionese”. Sou do
tipo que tolera coisas que a maioria nem olharia. Aceito as
diferenças. A pessoa que mais amo é minha mãe. Mas sou capaz de fazer tudo que estiver ao meu alcance para ajudar qualquer pessoa. Admiro pessoas excêntricas, extravagantes, que riem
alegremente sem qualquer pudor. Gosto de cores fortes: preto,
vermelho, verde-escuro. Acho maravilhoso ver matas, rios, paisagens,
relevos, prédios gigantescos nas grandes cidades. Me provoca uma
grande sensação de prazer andar solitário nas noites, pelo fato de
contemplar o negror e o frescor das horas tardias. Sou eternamente
apaixonado pela lua e gosto de sentir a areia da praia acariciar meus
pés em caminhadas sem rumo. Acho extremamente delicado o toque do
vento, o cair das folhas, o cheiro de frutas maduras, casas com
jardim, pássaros voando e borboletas coloridas. Sou colecionador de
selos, chaveiros, cartões postais, camisetas. Sou aquele que ama e é
amado, mas prefiro a solidão, pois isto também me nutre. Só sei
dormir/estudar ouvindo música tocando baixo. Não choro facilmente.
Não tenho medo da morte. Busco sempre o que quero/preciso. Não
tenho segredos, mesmo querendo exalar mistério. Sou transparente. Se
você não enxerga, é porque não quer ver. Não gosto de fazer
perguntas, mas responderei tudo se me alguém me perguntar. Detesto quem diz que me conhece. Já vivi
situações das quais me arrependo e me envergonho, mas que foram
importante para meu crescimento. Amo incondicionalmente. Me apaixono
facilmente por olhares, sorrisos, barrigas, pernas e bocas – mas
elas são sempre brisas leves, nunca tempestades. Gosto de músicas,
filmes, peças de teatro e leituras melancólicas. De vez em quando
me pego rindo sozinho de nada, no meio da rua. Admiro as pessoas que
falam a verdade, que falam o que pensam e o que sentem, e que falam comigo com sinceridade. Gosto de olhar nos olhos. Respeito a todos. Meu herói é
Hulk, o homem verde. Gosto que me chamem de louco – que riam
comigo. Gosto de desenho animado, filmes infantis, gibis, cantigas de
ninar, de contar histórias/estórias para crianças. Queria ter um
porco como animal de estimação. Acho ótimo andar descalço. Sou
defensor da liberdade, do ser, do estar. Gosto de altura e sempre
desejei ser pássaro. Em vários sonhos contemplei inúmeras
paisagens ao voar por aí indiferente – como se fosse uma
descoberta há muito desejada. Sou uma espécie que ainda não
conseguiu se definir em palavras, mas vou vivendo e com o passar do
tempo, reconheço minhas manias, meus defeitos, meus sonhos. Sou, no fundo uma pessoa feliz e triste. Sou essencialmente simples. Percebo
que vou me tornando cada vez mais humano – e ainda que me atormente
um pouco a realidade, sei exatamente quem e o que sou.
terça-feira, 8 de maio de 2012
A partida
Quando abri a porta, ela já estava
partindo, calma e fria como sempre fora. Caminhava olhando para trás,
como se esperasse algum impedimento para sua fuga. Dava alguns passos
lentos e voltava a lançar um olhar longo e profundo na direção da
casa. Observando-a às escondidas, deixava-a partir pelo caminho
afora. Não poderia correr e gritar que ela parasse e, implorando que
ficasse, expressasse toda minha emoção através de longos e
carinhosos beijos em sua face, num gesto tão pueril quanto fraterno.
Nada passou de um tímido desejo, imaginando uma ação que eu jamais
seria capaz de realizar. Logo eu, que nunca demonstrei apego por
nenhuma criatura, por nenhum objeto que fosse. Ali, parado,
perscrutando meus próprios pensamentos, reconheci em mim, com uma
franqueza ímpar, a iniquidade do meu gesto. Misturada com a sensação
de natural impotência, uma lágrima rolou inconstante do meu rosto
como se fosse um apelo de perdão. Via-a afastando-se sempre mais de
mim, perdendo-se nas curvas do caminho, e eu continuava inamovível
em minhas fragilidades. A falta de profundidade e a cegueira para a
eternidade fora sempre a maior expressão das minhas
vulnerabilidades, mas, naquele momento, fora doloroso reconhecer.
Deixá-la partir solitária e muda na manhã fria, cortou-me o
coração. Vê-la partir diante da minha indiferença e fraqueza foi
uma dor que jamais esquecerei. Ela partiu. Até hoje, mantenho-me na
janela com os olhos atentos, esperando o milagroso momento de seu
retorno. Sei, porém, que ela nunca virá – e eu continuarei sem
saber se ainda vive ou se mantém-se andando naquele caminho sem fim
– e eu, eternamente incapaz de fazê-la deixar de seguir e
dizer-lhe que, a despeito destas fraquezas, tenho por ela um amor
infinito.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Um pé nos trinta
Provoca-me certa angústia a
antecipação dos cabelos brancos antes da fase que tanto tememos: os
entas. Tudo bem que eu já estou na minha última etapa dos “inte”
e meus pés pulam, mesmo contra minha vontade, nos “inta”. A
juventude é assim – depois dos áureos dezoito ela se põe a
correr como em danação. Quando chegamos aqui, o desespero é uma
parte inevitável do processo, haja vista a necessidade de encarar a
vida com uma outra maturidade, que se ainda não temos, precisamos
buscar. Confesso que é a contragosto que lanço meu olhar no espelho
e me vejo assim pululando em cãs esbranquiçadas. Sei, porém, que
isso faz parte da mudança por qual passa o corpo no ritual
constante e enérgico da vida. Não que isso venha a sufocar a
existente mocidade verdejante e signifique a negação do seu status.
No entanto, sua presença vem como algo ameaçador se não estivermos
preparados para ela. Chegar aos trinta anos pode ser uma conquista ou
uma decepção – basta olhar para si mesmo e fazer as perguntas
básicas, as quais contemplam os ganhos espirituais, as conquistas
pessoais (em maturidade e moral também) e as realizações
profissionais. Além disso, pode-se olhar igualmente para o corpo e
perguntar se o físico contempla a idade. As afirmativas dessas
observações podem significar muito. Não tenho medo de ficar velho
nem de encarar as mudanças que a idade vai provocando – no
entanto, quero ter a consciência de que tanto o meu corpo quanto a
minha alma acompanham a maturidade desejada para entrar nesta fase.
Ainda tenho vinte e nove anos e sei que daqui a pouco estarei pisando
os “inta” com os dois pés. Meu anseio é, apenas, resistir às
exigências criadas por/para pessoas como eu. Afinal, o corpo pode
ser velho, mas a juventude é, também, um estado de espírito – e
este pode manter-se comigo até o dia que eu o desejar. Meus vividos
quase trinta anos foram de alegrias, bênçãos e dores necessárias
à construção da maturidade e do crescimento que fez a pessoa que
sou hoje. Obviamente, vivo com alguma nostalgia minhas reminiscências
e cultivo saudosismos de muitas épocas. Também arrependo-me de
alguns poucos erros/deslizes/transgressões (ou qualquer sinônimo
disso) cometidos em determinadas, mas tenho certeza que tudo foi
aprendizagem – e para mim aprendizagem, mesmo dolorosa enriquece a
existência. Carrego algumas marcas – as mesmas que expressam a
intensidade que vivi a vida até o dia de hoje.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
A música e a vida
Sempre ouvi
dizer, principalmente pelas pessoas que estudam ou trabalham com
música, que ela está presente em todas as ocasiões da vida –
desde o nascimento até a morte. Se observarmos direitinho, é
exatamente assim que acontece. Eu mesmo sempre me recordo de momentos
quando toca uma música específica. Tem músicas que me lembram da
infância; da adolescência; das farras em casa com a família; das
brigas com irmãos; das festas de rua; da fase das descobertas; das
que foram pano de fundo para os pequenos romances; daquelas que me
consolaram nos momentos de desesperos e dores; das alegrias mil que
já vivi nessa vida; de uma viagem; de uma amizade muito importante;
de alguém que bateu na porta e ofertou um sorriso; da paquera na
rua; e uma emoção que bate forte. A música tem o poder de
despertar em mim (ou em nós) as mais sublimes sensações – de
prazeres e dores. Neste exato instante, estou revivendo, por meio de
um disco que toca, alguns sentimentos de outrora. Confesso, me sinto
muito contente por isso. São tantas as canções que permeiam minha
mente e remexem os meus sentidos. Tenho certeza que, assim como em
mim, a música acompanha cada fase das outras pessoas. Por isso,
pergunto: o que seria da vida sem a música, sem um sinal sonoro
próprio para alegrar, entristecer, confirmar, confortar ou apenas
confirmar a existência de cada um? Viva a música!!! Viva a vida!!!
segunda-feira, 23 de abril de 2012
O livro Retratos
Não é a
ocasião de lançamento que faz nascer uma obra. Esta nasce muito
antes, no momento que o seu autor a constrói em pensamentos. É
assim: da ideia e do pensamento, ela surge fisicamente e passa a
ocupar o seu espaço. Retratos é minha realização pessoal – por
meio dele, começo a ser escritor em memória vegetal e me sinto
feliz por trazer à luz um produto cultural de qualidade.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Resposta sobre Felicidade
Dia desses,
um colega antigo me olhou e, abruptamente, perguntou se eu era feliz.
Fiquei um tanto intrigado com o que poderia tê-lo levado a me
questionar sobre felicidade, mas respondi: sou. Depois, ruminando
alguns questionamentos, comecei a propor minhas próprias razões. Se
ser feliz é ter família, emprego, estudo, amigos, o que comer, onde
morar – então sou feliz. Mas será que felicidade é somente
isso? Ou será que felicidade é isso tudo? Lembro que uma vez
escrevi sobre o assunto para um blog. No texto eu citava Epicuro, o
Marquês de Sade e outros. Ambos tinham uma visão diferente
sobre esse sentimento que todos desejam. O interessante é que a
mesma palavra recebe diferentes significados, depende apenas daquele
que a define. Phillipe
van den Bosch,
por exemplo, acredita que a felicidade é um estado de satisfação,
de contentamento, de alegria. Ser feliz requer a satisfação de
todos os desejos. Pessoalmente, felicidade é um conceito relativo,
complexo, utópico, subjetivo, e que nem sempre tem uma explicação
aceitável. Às vezes noto que as
pessoas confundem este sentimento com a alegria. A sucessão de
eventos alegres é o que produz a felicidade ou a sensação desta.
Meditando mais uma vez sobre a pergunta de meu colega, vejo que
encontrei uma resposta: ele esperava que eu estivesse sempre
sorrindo, alegre – mas eu não sou assim. Sou quieto, taciturno –
mas essencialmente feliz. Se estou calado, ausente fisicamente,
olhando o horizonte ou disperso numa leitura sem sorrisos, creia –
estou feliz. Cada um constrói a sua – e esse é o meu modo de ser.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Feliz aniversário, Marcela!
Não sei se devem ser comemorados os aniversários de quem parte. Mas sei que se aquela brisa não tivesse levado-a,
Marcela hoje estaria conosco, jantando à mesa, comemorando seus
áureos 21 anos. Mas, ela partiu e hoje vivemos de sua lembrança.
Sei que a morte é uma etapa da vida, mas nem sempre a aceitamos.
Aprendi a respeitar esse momento, e mesmo não compreendendo a
partida tão inesperada de Marcela, imagino que ela caminha leve e
tranquila nos Campos Elísios celestes, onde anjos e deuses cantam e
tocam trombetas de alegria. Aprendi que “viver é ato de contínuas
despedidas. Se a vida não se detém em momento algum, então viver é
estar sempre dando adeus”, como disse Daniel Leal. Creio que também
haverá um reencontro – e com certeza contemplarei mais uma vez (ou
eternamente) o seu sorriso.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Sendo escritor...
Ser escritor tem o seu lado bom. Passei a perceber um sentimento agradabilíssimo se desenvolvendo a partir do momento em que um primeiro leitor do livro Retratos teceu vários comentários sobre o que eu tinha escrito. Eu, que fui na maioria das vezes, leitor, sinto um imenso orgulho de mim mesmo e alguma gratidão pelos leitores tão sinceros. Desde a semana passada, quando os exemplares passaram a ser distribuído, venho recebendo elogios isentos de lisonjas, o que me alegra infinitamente. Tem sido muito gratificante saber que Retratos está sendo adquirido por pessoas realmente dispostas a ler e interessadas em descobrir os eus das personagens de cada conto. Sei que essas pessoas em algum momento vão se identificar com o livro e/ou com alguma personagem. O que me alegra é saber que eu trouxe à luz uma obra realmente boa, de qualidade. É assim: aos poucos vou me tornando escritor até me transformar verdadeiramente em um.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
O livro na estante
Sobreposto na estante da sala, mantinha-se juntamente com outras dezenas de títulos escritos em caixa alta berrando um “me leia”. Ele, como se estivesse ainda se adaptando ao novo ambiente, continuava ali, recostado timidamente no meio de todos aqueles estranhos companheiros. Percebera que estava começando por existir naquele mundo que a partir daquele momento, também era seu. Discretamente, com as orelhas ainda na posição original, sem marcas de dedos, com a capa ainda intacta, não esboçava qualquer pedido. Nada era urgente. Estava ali, existindo aos poucos, silenciosamente. Escrito em fontes com serifas, proporcionava ao leitor maior conforto. O papel fora escolhido para ser o melhor – um papel tem que cumprir bem sua missão e existir eternamente na memória vegetal, afinal toda missão deve ser cumprida plenamente. O papel polén 90g cumpriria a sua, a de trazer à luz letras carregadas de significações. Seu miolo fora projetado para ficar no centro de duas capas e orelhas bem feitas e bem escritas. Era a exposição de um sonho verdadeiramente construído à mão. Entre capas, o miolo gritava emoções dos infinitos eus das suas personagens simples e compostas. O amarelado de suas páginas e das capas regozijava-se como a aurora de um sonho novo e de uma esperança que vem anunciar a concretização do simples fato de ser livro na estante do seu autor – se esparramando na alegria de um projeto concretizado. Ser livro é assim: é estar na estante e nas mãos de um leitor que aos poucos se eterniza entre as palavras e as melopeias que só a alegria de publicar um livro produz.
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